Sobre Juanita – uma (auto)crítica, por Natália Letter

25/05/2013

O primeiro artigo que publiquei numa revista – ainda como estudante de jornalismo – era sobre o antropólogo e xamã Carlos Castañeda. Na época, a editora dele no Brasil enviou-me um exemplar de todos os seus livros, mas confesso que não me interessei muito e li bem pouco. Eram tantas as bobagens que se falavam e faziam, com base em leituras rasas e distorcidas de sua obra, que eu mesma não me sentia apta a penetrá-la, preferindo deixá-la para outro momento. Dez anos depois, vou eu assistir a um ensaio do espetáculo Juanita, dirigido pela bailarina Tica Lemos e composto por ela, Betina Turner, Cristiano Bacelar e Maia Gongorra.  Se não é fácil falar sobre xamanismo ou Don Juan, o que faço agora tampouco chega a ser mais que balbuciar algo a respeito das impressões que tive da pesquisa do grupo.

 

Fui ao ensaio preparada para ver um ‘trabalho de dança’, esperando com isso encontrar um determinado eixo dramatúrgico, uma determinada estrutura de ações, motes coreográficos, talvez um uníssono e um certo corpo de intérprete enquadrado nesta ou naquela linguagem. Mas a história ali versa sobre outro assunto, muito mais sutil e vibracional, que não pode ser contido em qualquer desses formatos pré-existentes. Tratam-se de corpos. E corpos tão só, apenas. Como assim ‘corpos apenas’? São corpos que se propõem o desafio de viver os atravessamentos das forças e das energias ao longo da jornada pelo deserto descrito por Castaneda. Criam no palco um micro ambiente onde é possível ver, no espaço-tempo concentrado da cena, o desenrolar desses diversos estados e personagens que transitam nos nossos corpos pela vida a fora. E ali estão artistas que não pretendem mascarar ou diminuir a dimensão dessa experiência tão humana por meio de gestos ensaiados, marcações e outras fórmulas do gênero.

 

Há ali um espaço de liberdade abissal nada simples de se vivenciar. Coisas acontecem… Um contato, uma frase, um tapa no chão… E foi…  Alguém se senta, outro vira-se de lado… E acontece ali, aqui, uma composição… Desmancha-se novamente. Como lidar com isso? Quer dizer então que ‘tudo é permitido’? Não, não é isso. Há nitidamente um rigor. Um rigor difícil, porque não está nas formas, mas na honestidade com que cada um se entrega ao tema. Não há truques. A regra é ser íntegro e estar ‘à espreita’, estabelecendo territórios moventes entre o caos ritual e a linguagem compartilhada. Há um respeito e um senso de responsabilidade para com o assunto que atinge as raias do entendimento e daquilo que é possível comunicar. Quando os atos já  não dão conta de dizer, resta sustentar a atmosfera.

 

Levanta-se, então, uma questão que não é respondida, mas permanece acesa: como atingir esse lugar de ‘loucura controlada’, de que fala Castaneda, sem se despojar de certos signos, modos e códigos de comportamento que mantêm os elos entre nós e a realidade consensual? Se é justamente a partir dessa desconstrução de si e dessa perda da história pessoal que Castaneda torna-se apto a penetrar nesses outros universos de sua própria humanidade, de que outra maneira se poderia trazer tudo isso ao palco senão abandonando também todos os modelos e a lógica do senso comum para encontrar uma outra práxis critativa mais adequada ao tema? Quais as ferramentas necessárias, qual a bússola deste trabalho? Penso em quantos tapas na cabeça não terá levado aquele obtuso antropólogo ao longo de todo seu percurso iniciático. Tapas que fazem tremer as bases e surtirem respostas de lugares desconhecidos em nós mesmos.

 

Bem, volto pra casa e passo o resto do dia profundamente incomodada e inquieta. Por que? Terá sido algo que o trabalho me provocou? – me pergunto. Não, era eu mesma que me aborrecia. Não estava me aguentando! Ocorreu que, terminada a apresentação do work in progress, o grupo gentilmente convidou-me a abrir os comentários. E eis que, quando dou por mim, lá estou eu disparando uma série de venturosas impressões acerca do espaço em torno que me pareceu muito amplo, da densidade dos territórios, do jogo de foco entre as ações e blá blá blá… Eu pedia a eles que me fornecessem um ‘mapa’ que desse conta de dirigir meu olhar, que me dissesse para onde ir! E eles achavam tudo muito pertinente e acolhiam. Já a atriz Georgete Fadel, que os acompanha há muitos meses colaborando com o projeto, observava-me com certa compaixão, como se entendesse onde eu me encontrava, porque também ela já se percebeu ocupando esse lugar.

 

Que lugar é esse? É o lugar daquele Castaneda cientista tapado e de visão estreita, desejoso de estudar sobre xamanismo, mas sem ter a real dimensão de seu objeto de estudo. O buraco, bichô, é bem mais embaixo! E eu, de cara, me mostrei assim incapaz de perceber algo de muito raro, singular e delicado que está sendo tecido por aqueles quatro corpos há, pelo menos, mais de um ano. Existe ali uma inocência lúcida que beira o insuportável, porque tange esse lugar frágil e precioso que se esconde embaixo de quilos de camadas e máscaras sociais. É o elemento mais vivo, mais potente e mais suave. Eu sentia a amplidão do espaço e quão vasto pode ser esse infinito, que se alarga nas profundezas de ser humano. Mas é tão perturbador presenciar algo assim inocente e despretensioso que eu, sem pestanejar, tratei logo de ir me defendendo da experiência por meio de um arsenal de frases bem articuladas e perfeitamente triviais.

 

Porque não é isso o que fazemos todo santo dia? É tão complicado para nós suportar viver como um ser pulsante, corajoso e aberto ao acontecimento, que respondemos com truculência a qualquer convite que nos incite à perigosíssima aventura de viver na instabilidade dos eventos que nos atravessam. Assassinamos milhares de Cristos por dia, no esforço de nos proteger de tudo aquilo que carrega uma pureza e uma fragilidade desconcertantes, porque desaprendemos a viver na potência máxima desse humano vulnerável. Tornar-se o super-homem nietzschiano, capaz de trafegar por realidades múltiplas e de se submeter radicalmente à ação dessas forças do universo, custe o que custar… Quem banca viver assim?Nossa miséria e presunção garantem algum conforto e bem-estar, mas nos privam da vertigem da queda que faz gerar o vôo. Fala-se tanto em liberdade e, no entanto, afugenta-se qualquer um que chegue balançando as chaves da gaiola. É curioso isso. Mas eu quero acreditar que já cumpri meu papel nesse quesito e presto agora meu testemunho da total idiotice que se mostra em mim, vez por outra. Dá-lhe na testa! Sejamos honestos, ora essa! Por que não paramos todos com tanto fingimento e tanta auto-importância! Tudo isso é realmente estupidez. Sou lenta, mas a ficha por fim caiu e me dei conta de que a vocação de Juanita é trazer à tona este Castaneda medroso e limitado que há em nós, pois só então poderemos começar a aniquilá-lo – com muita calma e estrutura.

 

Juanita, então… É o quê?

 

É dança? Teatro? Performance? Ritual? Aqui cabe uma ajuda de Deleuze: Juanita é isso e isso e isso e isso e…Juanita não é É, mas E. Desafio às identidades, adição de imagens, sucessão de espasmos, desdobramento de mundos, desfiguração das caretices pegajosas, um adstringente da percepção estética e, acima de tudo, um amoroso e edificante tapa na cabeçudice! Passado o susto do chacoalhão, espero que outros, como eu, experimentem também o sopro fresco e altamente inspirador: um acreditar na beleza e na poesia inerentes aos corpos em seu ofício de viver, produzindo-se a si mesmos e tentando controlar a maluquez, misturada com a lucidez. Que este seja apenas o primeiro de muitos projetos dessa linha.

 

Obrigada Juanita.

 

Fonte: http://sonoraletra.wordpress.com/sem-receita-2/

 

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