Desenho-dança em Juanita, por Jerusa Messina

16/07/2013

Minha pesquisa com o desenho no projeto Juanita vem tendo avanços significativos e ganhando novos contornos na medida de sua trajetória.

 

Partiu da proposta aberta, libertária, de que os caminhos para o desenho seriam aqueles que eu desejasse, contanto que dialogassem com o processo investigativo do grupo em torno da literatura de Castaneda. Os desenhos realizados serviriam inicialmente para ilustrar o blog do projeto e os certificados de participação nas oficinas, mas eu carregaria no corpo uma prontidão receptiva aos novos desdobramentos.

 

Iniciado o percurso, passei a entender, intuitivamente, que parte do desenvolvimento da pesquisa não seria uma prática pura e simples do desenho, mas um acompanhamento e vivência das experiências corporais dos dançarinos. Meu corpo também precisava ser preparado para compor o grupo de trabalho. Fui compreendendo, pouco a pouco, que apesar de composto por diversas linguagens, com suas especificidades, a pesquisa Juanita é um todo; um corpo complexo de artistas em busca de uma forma singular de produzir arte.

 

Durante a caminhada e na medida em que compartilhávamos as leituras dos livros, também foi ficando cada vez mais claro que a literatura de Casteneda seria para mim muito mais que uma “referencia”; porque não interessaria simplesmente representar seus elementos enquanto formas externalizadas, mas sim apreender seus conteúdos, vivenciando em arte os ensinamentos mágicos ali compartilhados. A literatura de Castaneda passou a ter, então, o papel fundamental de me servir como alimento e ferramenta para mobilização e manifestação da energia em forma de arte.

 

Assim fui me envolvendo cada vez mais com o projeto, que se revelou pra mim, inclusive, como um terreno extremamente fértil para o desenvolvimento do meu trabalho como artista. Me possibilitou acessar integralmente e sistematizar em pensamento meu processo de criação, abrindo espaço para novos entendimentos sobre o desenho e para a experimentação de outros formatos, suportes e materiais.

 

Inicialmente a criação consistia em gerar imagens a partir de um certo acúmulo de informações e experiências resultantes da pesquisa junto ao grupo de artistas participantes de Juanita.  Gerar imagens enquanto um “resultado” -- não no sentido projetivo, de uma elaboração racional do que elas viriam a ser, porque o improviso é a característica fundamental do meu trabalho, mas como o ponto auge de um processo -- parecia ser o objetivo da minha participação no projeto e era como eu me relacionava com ele num primeiro período.

 

A partir do momento em que comecei a desenhar durante os ensaios, já não mais me entendendo como uma observadora externa, quase que como apêndice do processo, mas sim como “observadora componente” do ambiente instaurado pelos corpos em movimento, estando eu performaticamente em ação, o ato criativo ganhou, no meu entender, o tal status de “auge”. Com essa mudança de paradigma interno, o desenho passou também a ser dança. 

 

Então os papéis de suporte cresceram para receber o movimento mais amplo do corpo, apareceram materiais mais adequados à nova agilidade e escala do desenhar. Formatos novos chegaram, o caminho se abriu.

 

Neste novo processo, o próprio caráter de improviso foi ficando cada vez mais claro para mim como um campo forte do desenho;  assim como a própria idéia de “improviso” ganhou finalmente qualidade mais consistente na minha consciência do que isso vem a ser; e acabou por estreitar meu compromisso com o Juanita e com a própria criação artística.

 

Entendo agora, com mais clareza, que, no meu trabalho como desenhista, “improviso” é o nome que pode ser dado à manifestação em imagem do campo de forças que se estabelece e com o qual é feita a conexão no ato da criação. No caso de Juanita, nome dado à manifetação em imagem do campo de forças criado pelos artistas “aglutinadores” do projetos e todas as energias participantes, como aquelas invocadas pelas leituras dos livros de Castaneda e o público dos ensaios abertos.

 

Buscando a origem das imagens que crio, agora visualizo que, caso se pudesse enxergar do ponto de vista do desenhista os vetores de energia combinados nesse campo de observação,  então, muito provavelmente, se enxergaria multidimensionalmente o que no desenho se configura em duas dimensões.  Essa é apenas uma suposição, mas também o indício de um rico campo de investigação sobre a arte enquanto manifestação concreta do sensível , que se abre a partir de agora.

 

Ao final deste processo, passo a entender meus desenhos como  cartografias subjetivas dos campos de forças que visito; ou, emprestando o termo criado por Suely Rolnik, como espécies de “cartografias do sensível”. E observo que meu trabalho enquanto artista ganhou segurança e conseqüente liberdade nos seus movimentos e trânsitos de linguagem. O projeto Juanita tem me proporcionado a expansão da consciência artística.

 

APONTAMENTOS PARA O PRÓXIMO PASSO

 

Vejo os passos dados até agora como o princípio de uma longa pesquisa. E já vislumbro o florecimento dessa consciência quântica que passo a ter sobre a maneira como produzo arte, em novas etapas de criação dentro do projeto Juanita.

 

Me instiga a exploração de novas possibilidades do desenho-dança, para expandir os contornos dessa linguagem que surge. Assim, me coloco alguns desafios para próxima etapa de Juanita:  como integrar mais ainda a ação do desenho à composição da dança, dialogando com os outros corpos em movimento durante a improvisação? Como a imagem gerada pode ter participação efetiva na composição, evidenciando-se como parte do ambiente e retornando ao campo de forças  que a gerou como um novo elemento em ação?

 

Em síntese, minha proposta concreta de participação na próxima edição de Juanita é ampliar e aprofundar a investigação em torno da idéia de desenho-dança, expandindo os movimentos corporais que geram o desenho e proporcionalmente aumentado a escala dos suportes, intervindo de forma mais evidente no espaço. Os desenhos gerados na improvisação em cena, configurados como instalações no espaço, passarão, assim, a compor cenograficamente o ambienta de apresentação.

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